Esse cara é o meu pai

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O dia dos pais veio e passou e eu percebi que não escrevi sobre o meu, mas ele é um cara que merece uma homenagem minha. Especialmente nesse momento.

Atire a primeira pedra a primeira menina que não tiver “daddy issues“. Em primeiro lugar, ela estará errada. Em segundo lugar, isso não é problema nenhum se a gente aprende a viver com isso. Eu tenho vários, que me renderam muito sofrimento durante muito tempo, mas hoje são parte de mim de uma forma quase carinhosa.

Meu pai foi um pai falho. Ele nunca estava por perto enquanto eu crescia, com horários de trabalho loucos e saídas com os amigos. Durante anos eu o castigava em segredo por isso, com um enorme sentimento de abandono queimando na garganta. Eu conhecia seus erros, que foram muitos, e o julgava por eles. E só para provar o quanto ele estava errado, eu fui lá e cometi os mesmos, ferindo-o de volta em uma batalha constante para provar pra mim mesma que ele era um pai ruim. Minha adolescência foi marcada por estes erros, meus e dele, e eu precisei de anos para compreender que nenhum de nós estava mais ou menos errado do que o outro e que eu, como ele, tinha falhas de caráter e personalidade que afetavam aqueles a quem eu mais amava.

Meu pai não soube a melhor forma de demonstrar afeto. Enquanto eu o culpava por isso, nem imaginava o quanto ele culpava a si próprio. Nessa disputa, descobri a mim mesma, compreendi ele e percebi que éramos parecidos demais para o nosso próprio bem. Herdei dele esta falha afetuosa, me tornei agressiva com aqueles a quem amo mais incondicionalmente. Minhas razões? As mesmas que a dele: no conhecimento das dificuldades que a vida impõe, não quero acalentar o sofredor, mas garantir que meus amados tenham a força e a dureza de espírito para encarar de frente tudo que se apresenta no caminho.
Nossa forma de amor é calçada em sobrevivência, no sacrifício pessoal. Abrimos mão da retribuição de carinho para garantir que essas pessoas estejam prontas para encarar o mundo sem nós.

Nos momentos de fraqueza, em que desabo de chorar como uma menininha indefesa e busco a proteção dele, não recebo abraços carinhosos e cafuné na cabeça, mas uma palavra mais dura de encorajamento e um aperto na mão tão forte que me fere, mostrando que está nesse homem gigante o equilíbrio que eu preciso para sobreviver mais um dia. Meu pai não me deu tudo que eu queria, mas me ensinou a cair em pé independente do tamanho da queda, e esse presente não tem preço.

Ele não é o pai que vai bater na minha porta depois de um dia ruim com um bichinho de pelúcia e uma caixa de chocolates. Ele vai me receber na casa dele com uma garrafa de whiskey e me dizer: se acaba hoje, porque amanhã você tem que estar pronta pra lutar de novo.

ESSE cara é o meu pai.
E eu não o trocaria por nenhum outro no mundo.

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